TDAH e ansiedade podem apresentar sintomas semelhantes, como dificuldade de concentração, inquietação e pensamentos acelerados. Entenda as principais diferenças e por que uma avaliação psiquiátrica cuidadosa é importante.
Ao longo dos meus 30 anos de experiência na área da saúde mental, uma situação que encontro com frequência no consultório é a dificuldade em diferenciar o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) dos transtornos de ansiedade.
Essa confusão é compreensível. Tanto o TDAH quanto a ansiedade podem causar dificuldade de concentração, inquietação, irritabilidade, alterações do sono e a sensação de que a mente está sempre acelerada.
Mas sintomas semelhantes podem ter origens diferentes.
No TDAH, a dificuldade de concentração está relacionada a alterações do neurodesenvolvimento e da regulação da atenção. Na ansiedade, a concentração pode ser prejudicada porque a mente está ocupada por preocupações, antecipações e pensamentos repetitivos.
Na minha prática clínica, compreender essas diferenças é fundamental para uma avaliação adequada e para a definição de um tratamento individualizado.
TDAH e ansiedade: por que os sintomas podem ser confundidos?
A dificuldade de concentração é um dos sintomas que mais frequentemente provoca confusão.
Ao avaliar um paciente, procuro entender como, quando e em quais situações ocorre essa dificuldade de atenção.
No TDAH, a desatenção tende a ser persistente e pode aparecer mesmo quando a pessoa está envolvida em atividades de que gosta.
Já na ansiedade, muitas vezes a dificuldade de concentração surge porque a pessoa está mentalmente ocupada com preocupações específicas.
Uma pergunta que costumo fazer durante a consulta é: “o que está passando pela sua cabeça quando você percebe que está se distraindo?”
Se a pessoa relata pensamentos ansiosos e preocupações repetitivas, com motivos mais definidos, isso pode apontar para ansiedade. Quando a dispersão acontece sem um conteúdo específico de preocupação, considero outras possibilidades, entre elas o TDAH.
Pensamentos acelerados e inquietação
Outro ponto que frequentemente gera dúvidas é a sensação de que a mente está “acelerada”.
Na ansiedade, essa aceleração costuma estar associada a preocupações persistentes, medo de que algo dê errado ou antecipação de problemas.
No TDAH, quando existe essa sensação, ela tende a ser mais dispersa, com mudanças frequentes de assunto e dificuldade para manter o foco em uma única ideia.
A inquietação também pode estar presente nos dois quadros. No TDAH, porém, observo com frequência uma inquietação mais constante, acompanhada de impulsividade e dificuldades de planejamento, organização e controle dos impulsos.
Na ansiedade, a agitação tende a estar mais relacionada a momentos de tensão, preocupação ou medo.
Por isso, durante a avaliação, não observo apenas a presença de um sintoma, mas o padrão em que ele aparece.
TDAH em adultos: por que investigar a infância?
Uma questão fundamental na investigação do TDAH é compreender a história do paciente desde a infância.
O TDAH é considerado um transtorno do neurodesenvolvimento e, de acordo com os critérios diagnósticos utilizados na avaliação clínica, alguns sintomas devem estar presentes antes dos 12 anos.
Isso não significa que todos os adultos com TDAH tenham recebido um diagnóstico durante a infância. Na minha experiência, vejo adultos que passaram muitos anos sem saber que apresentavam TDAH.
A ansiedade, por outro lado, pode surgir em diferentes momentos da vida e não apresenta necessariamente esse mesmo padrão de início precoce.
Desorganização, esquecimento e procrastinação
A desorganização é outro aspecto que procuro investigar cuidadosamente.
No TDAH, são frequentes dificuldades persistentes para organizar tarefas, administrar o tempo, manter rotinas, lembrar compromissos ou concluir atividades.
A procrastinação também pode ocorrer, mas nem sempre está relacionada à falta de vontade. Muitas vezes existe uma dificuldade real em iniciar, organizar ou sustentar uma atividade.
Na ansiedade, por outro lado, a pessoa pode adiar uma tarefa porque ela provoca desconforto, preocupação ou medo de fracassar.
Essa diferença pode parecer sutil, mas tem importância na avaliação clínica.
É possível ter TDAH e ansiedade ao mesmo tempo?
Sim. TDAH e ansiedade podem coexistir na mesma pessoa.
Na minha prática, encontro pacientes nos quais os dois quadros estão presentes. Nesses casos, a sobreposição dos sintomas pode tornar a avaliação ainda mais cuidadosa.
A dificuldade de concentração pode resultar tanto da desatenção característica do TDAH quanto da preocupação excessiva presente na ansiedade. Da mesma forma, a inquietação pode estar relacionada ao TDAH ou a um estado de tensão provocado pela ansiedade.
Além disso, pessoas com TDAH não diagnosticado podem desenvolver sintomas de ansiedade ao longo dos anos, especialmente diante de dificuldades persistentes para cumprir prazos, organizar compromissos ou manter uma rotina.
Por isso, uma pergunta importante é:
O que apareceu primeiro: a desorganização e a dificuldade de atenção ou a preocupação excessiva?
A cronologia dos sintomas pode oferecer informações importantes.
Como é feita a avaliação de TDAH e ansiedade?
Uma avaliação psiquiátrica começa pela história clínica.
Procuro compreender quando os sintomas começaram, como evoluíram ao longo da vida, em quais situações aparecem e qual é o impacto que provocam no trabalho, nos estudos, na vida familiar e nos relacionamentos.
Também observo se as dificuldades aparecem em diferentes ambientes. No TDAH, os sintomas tendem a apresentar um padrão com menor variação de intensidade em diferentes contextos. Na ansiedade, determinadas situações podem intensificá-los significativamente.
Como é definido o tratamento?
Quando TDAH e ansiedade estão presentes ao mesmo tempo, o tratamento precisa considerar as duas condições.
Na minha prática, avalio qual problema está causando maior prejuízo naquele momento, a intensidade dos sintomas, o histórico de tratamentos anteriores e as características individuais de cada paciente.
Dependendo do caso, podem ser utilizadas abordagens psicoterápicas, estratégias para organização e desenvolvimento de habilidades executivas e, quando indicados, medicamentos.
A escolha do tratamento medicamentoso também precisa ser individualizada. Alguns medicamentos utilizados no tratamento do TDAH podem, em determinadas pessoas, aumentar sintomas de ansiedade, especialmente no início do tratamento. Por isso, a resposta clínica e os possíveis efeitos adversos precisam ser acompanhados.
TDAH ou ansiedade: quando procurar uma avaliação?
Depois de 30 anos de experiência atendendo pessoas com diferentes condições de saúde mental, aprendi que sintomas semelhantes podem ter causas muito diferentes.
Dificuldade de concentração, inquietação, irritabilidade, problemas de sono e pensamentos acelerados não apontam, isoladamente, para um único diagnóstico.
É necessário olhar para a história da pessoa, para a evolução dos sintomas, para o contexto em que aparecem e para o impacto que provocam em sua vida.
Se você percebe dificuldades persistentes de atenção, organização, preocupação excessiva ou inquietação, uma avaliação profissional pode ajudar a compreender melhor o que está acontecendo.
No meu consultório, procuro realizar essa avaliação de maneira cuidadosa, individualizada e sem julgamentos, buscando compreender não apenas os sintomas, mas a pessoa que existe por trás deles.
Se você tem dúvidas sobre TDAH, ansiedade ou sobre a possibilidade de os dois estarem presentes, uma avaliação psiquiátrica pode ser o primeiro passo para compreender melhor seus sintomas e definir o tratamento mais adequado para o seu caso.


